Segundo Caderno

Esperança-Oiticica

Posted on 22/10/2009. Filed under: Segundo Caderno |

Após incêndio, restauradores encontram obras intactas em acervo do artista

André Miranda

Um facho de esperança começa a aparecer em meio à tragédia que atingiu o acervo de Hélio Oiticica (1937-1980). Logo após o incêndio na casa da família Oiticica, na noite da última sexta-feira, chegou-se a falar que 90% da obra do artista carioca teriam se perdido. Técnicos do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), porém, acreditam que o bom acondicionamento do material pode ajudar na recuperação parcial das peças que, além do fogo, também foram atingidas pela água usada para apagar o incêndio. Apenas na sexta-feira, será possível dizer com mais precisão qual o real percentual de dano para as obras de Oiticica.

Técnicos de Ibram avaliam o estado da obra de Hélio Oiticica após o incêndio - - Foto Marco Antonio Cavalcanti / Agência O Globo

Técnicos de Ibram avaliam o estado da obra de Hélio Oiticica após o incêndio - - Foto Marco Antonio Cavalcanti / Agência O Globo

Desde ontem, funcionários do Ibram realizam o trabalho de secagem e preparam um diagnóstico técnico. Hoje, o próprio presidente do instituto, José do Nascimento Júnior, virá de Brasília para visitar a casa, localizada no Jardim Botânico. Lá, estavam os parangolés, os bólides, os metaesquemas, entre outras peças de Oiticica, um dos mais importantes artistas brasileiros do século XX. Vários desenhos do Grupo Frente já foram encontrados intactos no local atingido pelo incêndio.

— É uma situação traumática e muito delicada, muitas obras foram queimadas e perdidas — diz Mario Chagas, diretor do Departamento de Processos Museais do Ibram. — A perícia ainda está sendo feita, então seria leviano fazer qualquer prognóstico em relação às causas. Mas havia uma preocupação grande por parte da família em conservar o material. Havia cuidados, duas profissionais visitavam o local regularmente, a rede elétrica estava em perfeito estado, havia desumidificadores em perfeito estado de funcionamento. A sensação de que o que ocorreu foi uma fatalidade. Não me pareceu falta de zelo.

O instituto destacou cinco pessoas para um plano emergencial de socorro. Para Chagas, ao contrário de algumas críticas recebidas pela família, o fato de as obras estarem guardadas em casa não representa necessariamente um problema:

— Há acervos muito bem conservados nas mãos de particulares, então eu acho errado dizer que as obras do Oiticica não poderiam estar com a família. O único ponto que aconselhamos é que, no caso de acervos desta importância, o poder público seja chamado para participar da conservação a longo prazo. A participação do Estado é importante, mas tem que ser uma participação acordada.

Seguro não seria um hábito no meio

O diretor do Ibram também minimiza a necessidade de um contrato com alguma seguradora. Outra crítica feita contra a família de Oiticica é não ter segurado as obras, avaliadas, segundo eles, em cerca de US$200 milhões.

— A maioria dos museus também não tem seguro permanente porque os valores são altos. Faz-se seguro em situações de risco, como numa exposição ou no transporte. Mais importante do que um seguro é o investimento em segurança, essa é a regra básica que recomendamos. Além disso, não há dinheiro que pague um parangolé — afirma Chagas.

A tragédia com a obra de Oiticica repercutiu junto à classe artística internacional. O jornal espanhol “El País” publicou uma reportagem em que destacava “a ferida na cultura brasileira” provocada pelo incêndio. Já o curador de arte latino-americana do Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York, Luis Perez Oramas, declarou-se “arrasado”. O MoMA possui 12 obras de Oiticica em sua coleção, entre desenhos, gravuras e três filmes. As obras são resultado em parte de doações da família do artista e em parte aquisições da coleção de Patricia Phelps de Cisneros.

— Para nós, Hélio Oiticica é o artista plástico brasileiro mais importante do século XX. Sua obra tem um valor inestimável, e, por isso, ele é um dos raros artistas latino-americanos a ter obras no acervo em exposição permanente no MoMA — disse Oramas. — A obra de Oiticica é muito variada. Ela parte de um pensamento construtivista sobre arte, faz uma autocrítica deste pensamento e inaugura uma vertente neoconcreta, em que a plasticidade do gesto e o rigor de execução se juntam numa linguagem artística absolutamente inovadora.

No Brasil, a tragédia também teve uma repercussão forte entre as famílias que cuidam do acervo de outros importantes artistas mortos.

— Nós lamentamos profundamente a tragédia ocorrida com a obra de Hélio Oiticica, grande nome da arte contemporânea brasileira. Nos solidarizamos com o drama da família Oiticica e aproveitamos para perguntar ao ministro da Cultura quantos outros acidentes como este serão necessários para que as autoridades possam agir em favor da preservação do patrimônio artístico brasileiro — diz Álvaro Clark, presidente da Associação Cultural O Mundo de Lygia Clark e herdeiro de Lygia (1920-1988).

Já a secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, depois de procurada pelo GLOBO, limitou-se a destacar sua “tristeza” com o acidente:

— É uma perda grande para o mundo, que causa uma tristeza profunda. Mas que sirva para que estado, sociedade e artistas se unam em torno da questão da preservação dos acervos.

COLABOROU: Marília Martins, correspondente em Nova York

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Literatura de Machado de Assis em concerto

Posted on 20/08/2009. Filed under: Cultura, Segundo Caderno | Tags:, |

Fantasia musical baseada no livro ‘Dom Casmurro’ tem estreia carioca na sexta-feira

Eduardo Fradkin

AOrquestra Sinfônica Brasileira faz, nesta sexta-feira, a estreia carioca de uma obra que atrairá o interesse não só de quem gosta de música contemporânea, mas também dos amantes da literatura nacional. A fantasia musical “Olhos de Capitu”, composta por encomenda do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, onde foi apresentada no ano passado, centenário de Machado de Assis, é baseada no romance “Dom Casmurro”.

No Rio, ela ocupará o palco da Sala Cecília Meireles, cujo diretor, João Guilherme Ripper, também é o autor da música. Para ele, o concerto será um presente de aniversário que chegará no dia seguinte à data, já que ele completa 50 anos de idade amanhã.

— Eu quis extrair do livro os momentos em que Machado, por meio do personagem Bentinho, fala do fascínio dos olhos de Capitu. Mas não transformei o texto original em canções para não cometer o sacrilégio de interferir com o ritmo da narrativa, a retórica e a função de cada palavra que Machado botou no papel com maestria. Fiz questão de preservar a prosa dele, então escalei um ator-narrador para fazer o papel de Bentinho e recitar os trechos do livro sobre os quais fiz comentários musicais. A música sublinha o texto, às vezes explora o que está nas estrelinhas e, outras vezes, contradiz o que é dito, pois o próprio Machado deixa a entender que tudo pode ser o contrário do que está escrito — explica Ripper.

Ele conta que elaborou leitmotivs (temas musicais recorrentes) para os personagens.

— Bentinho tem um coral inspirado em Bach, que mostra esse lado religioso e moral dele. Capitu tem uma tema sinuoso, sensual. Há um momento em que os dois temas são superpostos. A dúvida que fica no ar de que Capitu possa ter traído Bentinho é expressa com uma dissonância musical — diz o compositor, que não foi o primeiro a musicar o romance, condensado numa ópera homônima por Ronaldo Miranda, estreada no Teatro Municipal de São Paulo em 1992.

Com cerca de 17 minutos, “Olhos de Capitu” é dividida em duas partes. Na segunda, a soprano francesa Michelle Canniccioni canta um texto de Ripper intitulado “Modinha para Machado”, sobre a concepção de Capitu. O concerto, com reprise no sábado, tem também as “Valsas nobres e sentimentais”, de Ravel, e “O chapéu de três pontas”, de De Falla.

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