Contra a crise e em nome da produtividade

Posted on 31/08/2009. Filed under: Economia |

Empresas contratam especialistas para ensinar seus funcionários a organizar as finanças pessoais e a poupar

Juliana Rangel

O agravamento da crise financeira internacional fez com que grandes empresas do país dessem um passo à frente e procurassem ajuda profissional para orientarem seus funcionários a poupar e a investir. Por trás da estratégia está a convicção de que empregado endividado é menos produtivo: falta mais ao trabalho para ir ao banco e renegociar os débitos, tem maior incidência de brigas conjugais e dificuldades em concentrar-se nas suas atividades profissionais.

Em 2009, a média de cursos dados pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) sobre finanças pessoais a pedido de empresas foi de quase oito por mês. Em outubro do ano passado, quando a situação era mais preocupante após a quebra em setembro do Lehman Brother’s, o número chegou a 26.

A gerente de desenvolvimento organizacional da Net de São Paulo, Andrea Campos, conta que os funcionários passaram a questionar mais a crise nos últimos meses. Em maio, a empresa contratou os serviços da Bolsa para a “Jornada do desenvolvimento”, semana voltada para o aprendizado de funcionários e parceiros da empresa, incluindo terceirizados.

— A crise não era um problema para a Net, pois estávamos em fase de contratação. Mas alguns dos cônjuges de nossos funcionários tinham sido desligados das empresas em que trabalhavam e aquele seria o momento adequado para falar disso. Todos estavam ávidos para debater o tema — diz.

Turbulência preocupa também quem está empregado

A gerente dos programas de popularização da BM&F Bovespa, Patricia Quadros, confirma que a procura foi maior na fase de turbulência. Mas ela lembra que a Bolsa só computa a quantidade de cursos dados, e não a demanda das companhias.

— Apesar de não termos dados concretos sobre a demanda, sabemos que, quanto maior a crise, maior a tensão com o assunto. Mesmo as pessoas que estão empregadas se preocupam, pois tentamos estimular o pensamento no futuro — diz.

A Light também adotou a estratégia de orientar financeiramente seus empregados e incluiu o tema em seu Programa de Qualidade de Vida, oferecido a funcionários. No ano passado, contratou uma consultoria especializada em gestão de finanças pessoais e fez 13 palestras, em dez unidades da empresa, com participação de 700 empregados.

Neste ano, a empresa planeja fazer um curso online, e publicará os módulos ensinados na internet para que familiares e amigos dos empregados também possam aprender. Entre os temas estão como fazer um orçamento, planejar gastos e gerenciar investimentos.

A consultora Cássia Aquino se dedica há alguns anos à organização de estratégias de ensino e orientação para empresas, para que elas possam desenhar seu próprio programa de educação financeira. Segundo a especialista, a maior demanda vem de setores cujas atividades envolvam algum risco. É o caso das siderúrgicas, por exemplo.

— São áreas em que os funcionários precisam ter maior concentração — afirma.

Na sua avaliação, um funcionário preocupado com dívidas tende a faltar mais ao trabalho, adoece com maior facilidade e tem a saúde física e mental mais fragilizada.

— Os meus trabalhos têm sido feitos há um longo tempo, mas acho que a crise fez crescer o desespero das pessoas de maneira geral — diz.

Reconhecer as dificuldades é o mais difícil, diz especialista

Para a especialista, a maior dificuldade enfrentada pelas pessoas, de maneira geral, é o controle dos gastos.

— Os gastos fixos são mais fáceis de controlar, mas há outros que devem ser anotados. O primeiro passo é reconhecer o problema da falta de controle do orçamento — diz.

CARLOS GUEDES vivia endividado e, agora, está até poupando: "Dificuldade era não saber aonde ia meu dinheiro"

CARLOS GUEDES vivia endividado e, agora, está até poupando: "Dificuldade era não saber aonde ia meu dinheiro"

Aos 26 anos, o gestor comercial Carlos Guedes dificilmente conseguia fazer o dinheiro chegar ao fim do mês. Após assistir a um curso na empresa em que trabalha, está conseguindo economizar 25% de seu salário. O que mudou?

— Coloquei tudo na ponta do lápis e tirei coisas supérfluas do meu dia a dia, como cafezinho, coxinha de galinha, coisas bobas. Passei a dar valor para os pequenos gastos e fiquei mais disciplinado. Jogo tudo numa planilha e descobri que a minha maior dificuldade era não saber para onde estava indo o meu dinheiro — afirma.

 

GERALDO TOLENTINO: "Agora, já pagamos tudo o que devíamos"

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Para o técnico eletricista Geraldo Tolentino, a maior lição foi a renegociação de dívidas:

— Depois do curso, fiz uma reunião no fim de semana com minha mulher e decidimos renegociar as dívidas do cartão de crédito e do cheque especial. Agora, já pagamos tudo o que devíamos e estou investindo em um curso de inglês para minha filha — orgulha-se.

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