Na onda do volunturismo

Posted on 19/08/2009. Filed under: Razão Social | Tags: |

Camila Nobrega

 O hábito de ser voluntário em outros países existe desde a criação da Cruz Vermelha, em 1863. Mas um novo modelo está surgindo ao redor do mundo, com um misto de dois conceitos que antes não se misturavam com voluntariado: turismo e a não exigência de capacitação. O fenômeno está sendo chamado de volunturismo, que seria o ato de viajar como voluntário em uma expedição turística com o objetivo de ajudar sem ser remunerado.

 O volunturismo já é responsável pela movimentação de milhares de pessoas ao redor do planeta. E os brasileiros estão seguindo a corrente. Em uma comunidade do Orkut, intitulada “trabalho voluntário no exterior”, mais de duas mil pessoas trocam informações sobre o assunto. E algumas agências de intercâmbio, que antes só possuíam pacotes de cursos no exterior, já incluíram o voluntariado como opção. É o caso da Central de Intercâmbio (CI), que desde 2007 oferece programas com animais selvagens. E, de acordo com a gerente do Programa de Trabalho Voluntário da agência, Gisele Mainardi, a aposta tem dado certo:

— No primeiro semestre de 2009 já vendemos a mesma quantidade de todo o ano de 2008. Por isso, estamos abrindo programas com crianças e comunidades carentes. Os programas custam a partir de USD 600 por semana.

Segundo Gisele, a maior parte das pessoas que participam dos programas nunca fez trabalho voluntário. No caso da publicitária Andréa Gesser, de 45 anos, o voluntariado sequer estava nos planos. Ela procurava um pacote de intercâmbio para a filha, quando viu informações sobre os programas da CI com animais na África. Pouco mais de um mês depois, ela embarcou para a África do Sul, onde trabalhou num parque, com leões brancos:

— Fiz 15 dias de inglês, depois fui para o parque. Sempre tive vontade de conhecer a África, mas não queria fazer um passeio turístico. Acho que foi uma forma produtiva, pois, além de passear, fiz algo para alguém.

Sobre a participação em outros trabalhos voluntários no Brasil, ela explica:

— Já tinha pensado por alto, mas nunca comecei nada. Confesso que a viagem me deu um pouco de culpa de sair de um país tão necessitado como o nosso para ser voluntária. Voltei com vontade de fazer algum trabalho por aqui, mas não sei o quê ainda.

Segundo a socióloga Bianca Freire-Medeiros, autora do livro “Gringo na Laje”, que agora está desenvolvendo uma pesquisa sobre o fenômeno do volunturismo com apoio do CNPQ, a experiência vivida hoje é muito diferente da antiga visão de trabalho voluntário:

— A curiosidade de ver a pobreza é antiga, mas hoje a relação está intermediada pelo conceito de turismo, ou seja, envolve dinheiro e diversão. Surgiu um mercado que vende turismo voluntário e movimenta muito dinheiro. Nos primórdios, a experiência era religiosa, mas atualmente é algo ideológico. Tem muito mais a ver com o sentimento de viver em uma aldeia global e saber que existe sofrimento em volta. Os programas surgem como uma forma de apartar a vontade de fazer algo pelo mundo, sem tirar a diversão. O curioso é que, por mais que haja muitas críticas, a maior parte das pessoas que participa, gosta.

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